Finalmente Portugal pode jubilar neste campeonato mundial de atletismo alternativo que se está a realizar em Skrofulla, no país do sol poente. Conseguimos, foi a palavra que soou no final da boca do valoroso atleta português de zoopentatlo, Amílcar Alhito, ao subir ao mais alto e honroso lugar do podium. Ainda cheguei a duvidar, mas sou muito homem e não sou pessoa de me contentar com pau santo ou pau de cabinda, disse ao beijar a mais alta distinção deste campeonato, a medalha de carqueja.
Foram dias de competição bastante atribulados. Estamos todos lembrados do mau começo do primeiro dia, o lançamento do suíno. O porco português, Reco de seu nome, substituiu à última da hora o porco que costuma acompanhar Amílcar, Totó. Totó sofreu uma lesão na última semana de preparação para este campeonato, devido a uma queda aparatosa, tendo feito uma torção de cauda e escoriado a focinheira. Muitos terão contestado a decisão de não ir a este campeonato por parte de Totó, que esteve recentemente envolvido em rumores de doping, recusando os testes de controlo obrigatório em porcos, a biópsia de presunto. Reco, recrutado à última da hora, nunca esteve à altura de Totó, foi um porco magro e intranquilo, e sendo asmático, muito sofreu com o fumo nos locais de treino portugueses, na altura que ainda haviam bosques. Uma prova para esquecer.
O segundo dia foi mais feliz, embora não menos atribulado. A prova do enrabamento de camelo decorreu a favor de Amílcar. O camelo, Areias, revelou bom controlo de esfïncter, expulsando poucos gases, denotando experiência prévia (ao que parece era trabalhador por conta de outrém antes de se dedicar ao desporto profissional) e permitindo uma técnica com ritmo, agradável de seguir. Prática aliás bem conhecida no camelo português, habituado a sofrer este tipo de sevícias no seu dia-a-dia. O concorrente francês, Marcel Buffe, um sério concorrente à vitória, teve aqui em precalço, estando o seu camelo, Sabbles, bastante debilitado com hemorróidas e uma crise grave de diarreia ácida, teve de recorrer a um movimento desesperado de felação, técnica à qual não estava habituado, acabando mal num banho de baba. É também um problema conhecido dos camelos franceses, devido à sua fraca higiene, recurso incessante a águas de colónia várias e alimentação bizarra. O camelo francês é conhecido pelas suas diversas patologias, como défices olfactivos e visuais, que o leva sempre a pensar que cheira bem e é bonito, apesar das evidências. O que importa é ser feliz. Ainda pensaram em usar um camelo emigrantês, mas como estamos no Verão já tinham todos abandonado a França em bólides usados e alugados para migração anual, um desporto radical bem apreciado, apesar do número elevado de casualidades.
O terceiro dia albergava uma das provas raínhas desta competição, o salto para a rata. A prova portuguesa revelou o comportamento típico da rata portuguesa, de aspecto conservador e receoso ao início, mantendo a distância, usando argumentos fortes de ordem familiar, moral e até religiosa. No entanto, depois de ganha a confiança e perdido o receio, a rata portuguesa revelou-se inovadora, gulosa e ficou até sabor a pouco, tendo Amílcar recorrido à técnica secular do interruptus para tentar prolongar a prova. Nota negativa para a rata inglesa, pálida e um pouco frígida. Foi mais tarde detectado no exame anti-doping que havia consumido uma quantidade grande de cervejas, levando à sua desqualificação. Esta rata despertou a simpatia dos portugueses, assim como a alemã, pois são conhecidas frequentadoras de terras portuguesas a sul no verão.
O quarto e penúltimo dia é sempre o dia favorito para os amantes das artes belas, é o dia da figura de urso. Mais uma vez o concorrente português superou a concorrência com enorme destreza. Revelou técnica apurada, fruto de muito treino e dedicação durante os anos. Apresentando uma indumentária que impressionou logo à partida, constituída de chanatas de borracha, calções uns números acima do adequado e uma t-shirt de imitação do seu clube de futebol desde miúdo, Amílcar conquistou o juri com o seu andar sem sentido, óculos de marca na cabeça, bigode farto e palito no canto da boca. Um mestre na arte de fazer figura de urso.
O último dia da competição apresenta a prova mais completa e exigente, a combinação de força e destreza, inteligência e músculo, coragem e humildade, onde homem e besta têm de estar em simbiose perfeita, é a prova derradeira da entrada pela porta do cavalo. Vantagem inegável aqui para os portugueses, habituados a entrar pela porta do cavalo em todas as situações. Mesmo apresentando-se montado num burro, por falta de verbas, Amílcar derrotou a concorrência mais próxima sem dificuldade. Desqualificado foi o concorrente do Uzbequistão por ter sido apanhado na posse de cavalo. Este alegou que não tinha compreendido as regras nem que se estavam a referir a um quadrúpede doméstico caballu. É caso para dizer que foi de cavalo para burro.
Os nossos sinceros parabéns para Amílcar, o orgulho de todo o Portugal.
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