Hoje seria na peida
Bonifácio Cadita caminha como o faz todas as manhãs, de casa para a paragem do autocarro. Hoje acordou bem disposto, ao contrário do que lhe é habitual. Sentiu energia, alegria, vontade de desalapar o corpo velho e cansado do seu caixão nocturno a que chama cama. Nesta estão os mesmos lençóis já há mais de mês e meio, mas o toque empastado provocado por uma mistura de suor, urina e salpicos de esperma libertados durante os devaneios nocturnos na terra imaginária dos sonhos, aliado a pedaços de pele e pêlos dos mais variados pontos corporais, não parecem incomodar Bonifácio. Felizmente, ou não, a natureza não o dotou da habilidade de distinguir os variados odores. Melhor, pensa, não precisa de gastar dinheiro em perfumes ou desodorizantes. Na mesa, um vaso de flores de plástico, uma toalha velha e desgastada pelo uso, onde ainda se vislumbram os restos do que foi o jantar de ontem. Estava demasiado cansado, ou melhor dizendo, desmotivado para arrumar o que sujou e tirou do sítio. Ainda na banca se vêm os restos das embalagens dos pré-congelados, o copo de uísque, um velho hábito, pão seco abandonado e os mais variados utensílios que há muito perderam lugar nas prateleiras. Na sala deixa o sofá ainda com a toalha amarrotada, os jornais de ontem com algumas páginas rasgadas no chão entre o sofá e a televisão perigosamente perta, e a embalagem de óleo corporal que por acidente entornou com o pé num momento de maior euforia. Tenho que me lembrar de devolver o DVD. Era um fã dos vídeos, mas rapidamente passou para o DVD, adorava a sua imagem e som digital. Distinguia muito melhor os corpos nus, em câmara lenta, nos momentos que mais lhe tocavam. Vestiu a mesma combinação aborrecida de indumentária, conservadora, coçada, sem imaginação. Não é pessoa de arriscar muito. Pegou na sua pasta e aqui o encontrámos, a dirigir-se à habitual paragem de autocarro, onde já conhece as caras e os horários de todos que por lá passam. Hoje está feliz, pressentia que algo de bom lhe iria acontecer. Uma fila esperava já o autocarro, sorriu abertamente, ia ficar mesmo ao lado da sua fetiche matinal, uma loira entradota, de peito avantajado, que hoje trazia umas calças finas que deixavam adivinhar que naquele pandeiro, como gostava de denominar a região nadegueira daquela maravilhosa loira, fio dental era o prato do dia. Fechou os olhos um segundo, abrindo-os de seguida, fixou-se atentamente na forma daquelas nádegas que vem a desejar há uns anos e veio-lhe o pensamento descontrolado à cabeça, Hoje seria na peida...

3 Comments:
Pois, é do calor. Vem um pouco do calor e os "fios", saltam-nos logo com a imaginação.
á grande Bonifácio, dá-lhe forte homem que nunca te falte as forças.
Ahahahahahha...
Bom texto! Às vezes é a brincar que se dizem coisas sérias. Dá-lhe na peida, nem que seja um pontapé.
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